O Dia das Bruxas

Em uma pequena casa vivia Lilibela e seus três filhos: duas garotas pequenas e um garoto bebê. O pai das crianças foi para a guerra e nunca mais voltou: “Morto em batalha”, foi tudo o que lhe contaram quando lhe compensaram com três moedas de ouro por sua perda. Com o dinheiro, a mulher comprou duas galinhas e um galo, esperando que isso, quem sabe, poderia ser o começo de sua própria granja.

Um dia, porém, um grupo de bandidos invadiu a propriedade e levaram os animais e o pouco que restava de sua colheita. Desolada e desesperada, pois havia perdido os meios para manter e alimentar a família, a camponesa se ajoelhou na estrada e chorou... chorou... pedindo aos céus uma saída de seu infortúnio e um meio de salvar suas crianças. Foi então que uma voz feminina soprou em seu ouvido: “Venha até mim”. Um frio lhe subiu pela espinha, pois quando olhou para o lado percebeu que a voz vinha da floresta. Ela se levantou lentamente e encarou as árvores que lhe convidavam a entrar, sabendo que quem adentrava a mata jamais voltava, contudo, mesmo sentindo medo, uma estranha sensação de segurança surgiu em seu coração, como se o local estivesse lhe fazendo um convite e uma promessa de ajuda. Um passo após o outro, ela se aproximou e logo já estava envolta na relva, sem saber como, seguia um caminho que sua mente desconhecia, mas seus pés pareciam conhecer intimamente. Ao seu redor um enorme ecossistema coberto pelas sombras das árvores gigantes do local, seus pés andam e adam... até que vislumbra uma clareira iluminada. Ao passar pela luz, ela avista uma espécie de santuário feito de cipós emaranhados e flores brancas entranhados em uma árvore gigante, a edificação está no centro de um lago com apenas uma ponte de madeira retorcida de forma adornada ligando-a à floresta, a mulher segue até a entrada aberta, todavia, antes que seu pé pise sob as pétalas brancas que cobriam metade da ponte, a mesma voz que de antes lhe ordena: “Pare!”. Ela então lentamente posiciona seus pés na parte descoberta da ponte, olhando para o portal na base da árvore, cujas sombras impedem que seja revelado qualquer parte de seu interior.

Das sombras do portal, surge uma mulher pálida, extremamente magra, trajando um vestido de pétalas brancas gigantes, a metade superior de seu rosto coberto por um adereço de cabeça adornado com chifres de veado. O coração da aldeã disparou: “Uma bruxa!”, pensou enquanto seus lábios permaneciam selados. “Eu vi o que aqueles homens fizeram com você”, diz a bruxa. “Posso lhe trazer de volta tudo aquilo que lhe foi tomado e ainda garantir que algo assim nunca volte a lhe acontecer”, complementa. Lilibela observa por alguns instantes, paralisada de medo, até que as palavras borbulham de seu estômago e saem de sua boca: “Qual seria o preço de tamanha benção, minha senhora?”, questiona com uma voz trêmula. A estrige sorri: “Uma simples visita. Peço somente que, quando chegar a tua casa, me recebas de portas abertas”. A mulher gela, pois, uma coisa sabe com certeza: você nunca deve convidar o mal para a sua casa, ela abaixa a cabeça e respira fundo, voltando a encarar a ofertante: “E se eu recusar seu auxílio, minha senhora?”, pergunta. A figura misteriosa aponta para a floresta atrás dela: “Você pode simplesmente dar meia volta. Nenhum mal cairá sobre você enquanto retorna”, afirma. A lavradora olha para trás, observando as árvores de onde veio. “Mas é apenas uma visita, não irei tomar o lugar de você, tampouco irei desvirtuar teu sacro lar”, garante a figura pálida. A mulher fecha os olhos e reflete um pouco, ela poderia não aceitar a oferta e buscar ajuda no vilarejo, mas não é a primeira vez que bandidos invadem a vila e a bruxa garantiu que não permitiria que sua casa fosse invadida novamente. Ela pensa nas crianças, ela só quer que eles cresçam. “Eu aceito”, profere. A habitante do lago sorri: “Muito bem, você pode ir agora”. A camponesa se vira e caminha até a floresta. “E lembre-se: quando eu for até a tua casa, me receba de portas abertas”, a voz da dama de branco soa no ouvido da mãe que olha para trás e vê apenas o portal da árvore, ninguém mais presente no local.

A camponesa caminha pela floresta quando ouve uma voz vinda de cima: “Você fez mesmo o pacto, não sei dizer se foi inteligência ou burrice”, ela olha na direção do som e vê uma jovem mulher prostrada sobre um galho gigante de uma árvore alta, outra bruxa, mas esta vestindo trapos presos por cordas improvidas feitas de cipós, com lodo pelo corpo todo, cobrindo parte de suas pinturas corporais e cicatrizes espelhadas por toda pele, seu olhar marcado pelo castanho de sua íris dentro do fundo preto de uma pintura facial que circunda seus olhos, cabelos castanhos longos, desgrenhados, adornados com tranças e ossos. “Quem... quem é você?”, inquire Lilibela, tremendo. A jovem misteriosa salta do alto da árvore e pousa no chão como se nada fosse, revelando duas lâminas presas em sua cintura, sem olhar para a aldeã, ela caminha de um lado para o outro: “Eu sou uma das razões pelas quais aqueles que adentram esta floresta jamais a deixam”, revela calmamente à medida que para e olha para seus dedos enquanto junta as mãos. Ouvindo isto a lavradora se retrai, acuada. “Mas você foi convidada, então não lhe farei nenhum mal”, garante a maltrapilha, se voltando para a vagante, que engole seco: “O que a senhora quer de mim?”, questiona com medo. A feiticeira faz um sinal de não com os dedos: “Ninguém lhe ensinou que visitantes que fazem muitas perguntas perdem o direito à hospitalidade?”, afirma em tom casual, mas ameaçador. A pobre mulher se encolhe. “Então você tem três crianças, duas meninas e um bebê. Me diga: o bebê é menino ou menina?”, inquire a estrige. Lilibela pensa em perguntar como ela sabe de seus filhos, todavia a ameaça anterior a fez conter-se: “Menino”, responde secamente. A jovem ameaçadora sorri: “Perfeito”, afirma com os dentes a mostra. A feiticeira então enfia sua mão direita dentro da faixa de pano que circunda sua cintura, procurando algo, logo ela tira três talismãs e os segura próximos ao rosto da mãe, eles são idênticos na maior parte, exceto por um que tem um desenho de runa diferente dos outros dois. “Preste atenção, você precisa colocar estes talismãs nos seus filhos”, alerta, “Estes dois você coloca nas meninas”, complementa apontando para os talismãs que contém o mesmo símbolo rúnico, “E este no menino”, completa apontando para o talismã com símbolo diferente. A mulher hesita, mas pega os talismãs. “Coloque os talismãs nas crianças e não deixe elas os tirarem ou saírem de dentro de tua casa até a visita, entendeu?”, inquire a dama da floresta olhando fixamente para a mãe, que responde acuada com um gesto de cabeça sinalizando ter compreendido, “Se a visitante perguntar sobre as crianças responda: ‘Elas não estão aqui para você’. Exatamente esta frase e somente ela, nenhuma palavra a mais ou a menos”, instrui, o qual a aldeã acuada novamente acena com a cabeça, sinalizando ter compreendido. A jovem esfarrapada então se vira de costas e caminha na direção do interior da floresta, mas para e olha para trás: “E mais uma coisa, não importa o que aconteça, NUNCA encoste em tua visitante, entendeu?”, alerta antes de sumir mata adentro. A camponesa olha para os talismãs e volta a seguir seu caminho para fora da floresta.

Ao chegar próximo a sua casa, Lilibela logo vê as filhas correndo atrás das galinhas, ao caminhar até as crianças ela também nota que sua plantação que tinha sido pisoteada estava de pé novamente, a bruxa pálida havia cumprido o que prometeu, ela então leva as crianças para dentro, coloca os talismãs no pescoço de cada uma e as comanda a não sair de casa, lembrando da orientação da bruxa suja. Os dias passam e, em uma manhã quando estava cuidando da plantação, ela se depara com a feiticeira de branco adentrando sua propriedade com uma cesta de pétalas de rosas brancas no braço esquerdo, ela nota que, antes de dar qualquer passo, a bruxo primeiro joga pétalas no caminho e só então prossegue, sempre pisando sobre as flores despedaçadas, nunca diretamente no chão, a camponesa então nota uma rota de pétalas que saem da floresta e vão até sua visita. “Minha senhora, eu agradeço vossa benção. Minhas aves voltaram assim como minha colheita, o povo do vilarejo também comemora a morte dos bandidos que nos atormentavam”, diz a lavradora se ajoelhando na frente da bruxa. “Uma benção sem dúvidas. Agora abra a porta de tua casa para que eu possa apreciá-la”, comanda a aparição. Lilibela se levanta e segue a ordem, abrindo a porta e pedindo para que a salvadora entre, porém, quando ia fechar a porta, é interrompida pela convidada que diz: “Não. Deixe-a aberta”. Sem entender, a mulher simplesmente acata o pedido. Sem perder muito tempo, a estrige pálida vai até o berço onde está o bebê e o observa: “Um bebê. Não há nada mais puro que isto”, diz contemplando a criaturinha por alguns instantes, até que ela para e olha ao redor: “Mas... onde estão as outras crianças?”, questiona. A mãe fica sem entender, já que as filhas estão deitadas sobre a cama no mesmo cômodo, contudo, antes de responder ela lembra da orientação da outra bruxa e diz: “Elas não estão aqui para você”. Ao ouvir isto a hóspede se enrijece e, mesmo com metade do rosto coberto, se percebe sua expressão de raiva: “O que você disse?”, questiona em tom ameaçador, um vento gélido adentrando a casa. A aldeã se encolhe de medo, todavia se mantém seguindo as instruções: “Elas não estão aqui para você”, responde. O vento rodeia Lilibela, esfriando o seu corpo e tornando sua respiração difícil: “Você ousa me dizer isso? Onde estão as crianças?”, questiona mais uma vez de forma ameaçadora. Com a última gota de coragem que lhe resta, a mãe responde: “Elas não estão aqui para você”. O ar para e sai de seus pulmões, ela já não consegue respirar e cai de joelhos no chão, porém, quando sua visão começa a ficar turva, tudo passa, e ela respira profundamente, se levantando. “Entendi”, diz a aparição ultrajada, “Que seja!”, complementa e em seguida pega o bebê com seu braço livre e segue rapidamente em direção a porta. Desesperada, Lilibela corre atrás da feiticeira, erguendo sua mão em direção a bruxa, a segurando pelo braço, ela sente uma ardência e uma dor lancinante em sua mão, como se tivesse a inserindo em uma chama. A bruxa olha para a mão segurando seu braço e grita horrorizada, a voz estridente faz os ouvidos da camponesa sangrarem, e, conforme sua visão escurece a última coisa que percebe é a casa desmoronando com a reverberação do brado.

Ao recobrar a consciência, Lilibela sente uma dor extrema em sua mão direita, aquela que encostara na bruxa, ela logo percebe que a palma da mão está em carne viva, ao se lembrar do filho, ela se levanta rapidamente, porém, logo percebe que a casa desmoronou em cima de suas filhas, então corre para os escombros para buscar por elas, ignorando a dor, ela tira todas as madeiras e consegue chegar até as crianças que, milagrosamente, ainda estavam respirando e não tinham nenhum ferimento, assim que as meninas acordam, seus talismãs quebram, elas começam a falar, mas a mãe não consegue ouvir suas vozes, é assim que percebe que está surda, a camponesa então abraça as filhas, ela olha para a floresta e até pensa em ir buscar seu bebê, mas sabe que se entrar por conta própria não será mais tratada como convidada.

206, Oliaf

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